Sobre comer borboletas I - Partida


Ele não era nada demais. Havia quem dissesse que ele não era nada, nem de menos. Um menino qualquer, com roupas quaisquer e olhar qualquer. Só decidiu vagar. Foi o caminho que o fez diferente dos demais, certamente se ele escolhesse o mesmo caminho dos outros, não seria qualquer um, mas um eterno “o mesmo de sempre”.

O menino era viciado em tomar chá e lutava contra este vício. Não era nada difícil encontra-lo com uma caneca na mão, exibindo-a e deliciando-se com tragos da infusão.
O menino ouvia sons sem sentido, versos vagos e cores berrantes. Não era muito comum que os jovens de sua geração ouvissem as mesmas fitas, lessem as mesmas letras e assistissem as mesmas películas.

Quando abriu a porta tinha a certeza de não voltar jamais. Era uma escolha sem volta, dolorosa, e, talvez, breve. Depende de como você vê. Andou meio quarteirão, olhou pra trás, completou o quarteirão, olhou novamente, e, quando iria olhar pela décima vez, tinha se cansado e não olhou mais.

Deve ter andado por horas, dias, anos. A noção de tempo é transitória, e, como já disse, tudo depende de você. O certo é que o guri percorreu muitos quilômetros. Ao encontrar uma árvore, deitou na relva e encostou-se nela. Foi exatamente ali que aconteceu o que de mais valioso tenho para contar.

Ao avistar violetas logo abaixo de seus pés, sentiu-se mal. Teve uma dor aguda no peito, e, intuitivamente, pensou em comer borboletas. Aí, caro leitor, ele correu. Correu como se quiser alcançar o céu, o que era na verdade uma tentativa desesperada de alcançar a borboleta mais próxima. Era linda, muito amarela e de tamanho médio. Bailava no ar como uma bailarina que sabia voar. Ele conseguiu pegá-la e a comeu.

O menino nunca mais voltou pra casa, até onde sei, continuou viciado em chá, e, estranhamente, começou a depender de borboletas para viver.

A fome por borboletas tornou-se metódica com o passar do tempo. Saciava-se apenas com uma borboleta azul, uma amarela e duas brancas por dia, as quais tinham que ser comidas vivas e durante o entardecer, assim que o sol desse aquele sinal de preguiça. Provavelmente, com muitas dessas cores, teria que depois de mais tempo variar.

16 comentários:

Renata disse...

Olá, venho agradecer pelos comentários lá no meu blog, seja sempre muito bem vindo!
Pelo visto também gosta do TM, então vejo que és um 'raro'.

Confesso que hoje estou com um pouco de pressa e não pude ler outros posts, devido a falta de tempo, mas voltarei logo com toda certeza, pois gostei do texto, da maneira que você escreve. Acredito que vou encontrar escritos muito bons pra preencher minhas horas vagas.
Um ótimo dia pra ti! Luz...

Matheus Salvino disse...

Renata, seja sempre bem vinda... Já sou visita constante do seu blog...

Papo na língua disse...

Matheus, muito obrigada por visitar o meu blog e fazer um comentário tão bom. É a primeira vez que tenho a oportunidade de visitar o seu cantinho e posso dizer que o seu blog é único. Amei o seu post e vou ler outros, sem sombra de dúvidas. É disso que precisamos, de textos com qualidade.
:)

Marijleite disse...

Comer borboletas...
gostei do texto;fui refletindo enquanto lia;
"se ele escolhesse o mesmo caminho dos outros, não seria qualquer um, mas um eterno 'o mesmo de sempre'”..."tinha se cansado e não olhou mais" partes que eu mais gostei.Vou seguir o blog;quem sabe eu consiga entender o que vc quis dizer com "comer borboletas".

Matheus Salvino disse...

Marijleite, obrigado. o "Sobre comer borboletas" é uma série, pode ser que com o acompanhamento dê pra entender, rs.

Anônimo disse...

Interessante, o menino que come borboletas...
fascinante a leitura! Quero acompanha de perto essa série! Vou lhe seguir!

Abraços.

Amandita disse...

Lembrou-me do conto "A terra dos meninos pelados"...rs.

Metáfora interessante.

Matheus Laville disse...

Hummm.... E incrível como alguém faz um blog sobre história é bem complicado....

Bafonique disse...

Esquisito comer borboletas!
Legal o texto!
ótimo blog!
=]

Alex Monteiro disse...

Vim retribuir o Seu comentário lá no meu Cantinho
Obrigado por tudo o que vc disse
Seu blog n fika atrás viiu?
PARABÉNS
Estou seguindo Com certeza :)

Matheus Salvino disse...

Obrigado Alex,
poesia pra ti!

Anônimo disse...

Olá,
Parabéns pelo blog!
Segue lá?

http://estanteseletiva.blogspot.com/

Emma disse...

Matheus, muito bom!
Queria saber das reações adversas de se comer borboletas... talvez, quem sabe, de tanta borboleta que ele comeu, ele começasse a voar por aí e sonhar com uma realidade que so pode ser vista do alto... hehe
abraços!
tou seguindo tb! :D

Lucas Adonai disse...

Muito legal ;D

Marilucia disse...

Matheus qu rico texto e ao mesmo tempo tão intrigante e metaforico, mas um bela história...obrigada por nos dar o prazer de ler algo tão real e ao mesmo tempo tão magico.

Parabéns!

Blog UaiMeu! disse...

Eita moleque doido primeiro viciado em chá ,depois borboletas kkkkk
bacana o texto muito curioso logo vou ler a parte II

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Gentileza realmente ler o post antes de comentar. Obrigado.